Entrevista: Discarga
por Rafael Karasu (rafael@karasukiller.com)
Fotos: Mauricio Santana
publicada originalmente na DOLL (Japão) Nº254
09/2008
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Oi Discarga, como vocês estão?
Estamos muito bem! Correndo bastante nesse começo de ano gravando disco novo e preparando tudo para a tour na Europa.
Quem faz parte do Discarga hoje em dia?
Daniel na guitarra e voz, Nino na bateria e eu (Juninho) no baixo.
O que motivou vocês a formarem a banda?
Eu não sou da formação original, entrei na banda no começo de 2001, mas fui no primeiro show da banda, sempre acompanhei. O motivo era fazer uma banda de barulho, bem na pegada Discharge, Extreme Noise Terror, Doom, até que no início da banda, as primeiras músicas tinham vocal gutural. Mas isso durou pouco, logo foi adaptado os vocais limpos, e quase todas as primeiras músicas foram regravadas nessa forma que escutamos hoje em dia.
O que significa o punk/hardcore em suas vidas? E consideram-se uma banda punk/hardcore tanto na sonoridade como na postura?
Todos da bandas levam uma vida ativa dentro do punk/hardocore. Isso desde antes de montar o Discarga, indo em shows, ouvindo som, e também uma postura punk dentro da sociedade. Todos somos vegetarianos há muitos anos, com idéias e atitudes que batem de frente com o modelo padrão de cidadania. Quanto ao som, nem se fala! Muito punk, muito hardcore!
O Discarga pode ser considerado uma das bandas mais respeitadas da cena de São Paulo. Quando vocês começaram a banda, imaginavam que poderiam alcançar essa grande repercussão tanto em São Paulo como mundo afora?
Desde o princípio nunca se teve uma idéia de quanto tempo iria durar ou se muita gente iria curtir, mas logo no início da banda o Max, da 625records, ouviu e fez uma proposta de lançar um 7” por lá. Isso foi o primeiro passo de toda essa trajetória.
Com o lançamento do compacto nos EUA, a banda percebeu que poderia ganhar atenção do público fora do país, daí a coisa só foi crescendo, muitos contatos, shows, turnês.
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Qual é a opinião do Discarga sobre a cena punk/hardcore de São Paulo e do Brasil?
Nós adoramos a cena brasileira. Desde sempre rolou muito respeito com a gente, temos amigos pelo Brasil todo, já tocamos em muitos lugares fora de São Paulo, inclusive em cidades que ficam mais de 50 horas de nossas casas! O país é muito grande, o contato das bandas só não é mais próximo pela distância geográfica que temos, mas existem muitos e muitos selos, bandas espalhados por todo país, pessoas que estão na cena há mais de 10 anos continuando ativas, isso é muito importante.
Façam uma comparação do que era o hardcore quando vocês começaram a tocar com o que ele é nos dias de hoje?
Só enxergamos evolução no hardcore, sempre mais estrutura pros shows, melhores equipamentos, melhores formas de divulgação. São Paulo é uma cidade que, hoje em dia, suporta muitos shows dentro do mesmo mês, inclusive dias de semanas com shows lotados, isso só podemos ver de uns anos para cá, e esperamos ver isso acontecer em outras partes do país.
Quantas turnês européias o Discarga já fez? Quais países a banda já tocou?
Fizemos duas turnês na Europa, uma em 2003 e outra em 2005, acompanhados pelos amigos do I Shot Cyrus. Os países são muitos: Espanha, Portugal, França, Bélgica, Holanda, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Polônia, República Tcheca, Eslovênia, Hungria, Áustria, Itália etc...
Além de tocar no Discarga, vocês possuem bandas paralelas, como conseguem dedicar-se da mesma forma em todas elas?
O Daniel é o único que está tocando apenas com a gente, o Nino toca no M.A.C.E. e comigo no O Inimigo e no Eu Serei a Hiena. E eu toco também no Ratos de Porão.
O Nino também trabalha de roadie para o Ratos de Porão, portanto é uma prioridade, mas não tendo shows do Ratos mandamos bala com as outras bandas, dá pra se virar bem.
Todos os membros da banda têm trabalho ou vivem de música?
Todos trabalham com outras coisas, o Nino já trabalhou em indústria de peças para automóveis, mas agora está num estúdio de tatuagens e piercing, o Daniel trabalha com design gráfico e eu não tenho nada fixo, mas no momento estou fazendo produção para shows no mesmo escritório que trabalha com o Ratos.
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O que vocês estão ouvindo atualmente ?
Putz, o ideal era fazer essa pergunta para cada um da banda, mas aqui vou eu dar uns chutes. Pra começar sempre muito punk/hardcore antigo, isso é bem característico de todos da banda, mas depois disso muito reggae, jazz, sempre um pouco de cada coisa pra refrescar o cérebro.
Como vocês vêem a atual cena brasileira? Quais bandas vocês costumam ouvir da cena hoje em dia?
A quantidade de bandas em São Paulo e no resto do país é enorme, conhecemos muito pouco do que se tem por aqui. Em nossa tour pelo Nordeste do país em 2003 conhecemos inúmeras bandas que não tínhamos idéia que existisse, como Facada, LatoKaos, Triste Fim de Rosilene etc. Aqui em São Paulo, estamos sempre mais perto dos shows, portanto posso citar D.E.R, Nerds Attack, Subtera, Justiça, Sweet Suburbia, Hurtmold etc.
O que você acha que tem de bom e o que tem de ruim na atual fase do underground brasileiro. Existe um apoio?
Posso concluir que hoje em dia temos mais pontos positivos que negativos, pois de muitos anos pra cá só vemos a cena crescer e se organizar mais. Viajando pelo Brasil e tocando, o que percebo um pouco de ruim é que são sempre as mesmas pessoas que organizam shows e fazem as coisas acontecerem, claro que temos muitos grupos novos, mas ainda acho que é “público” demais. Acredito que as pessoas têm que tomar mais incentivo. Sobre apoio não existe nenhum, são pouquíssimos shows que temos com patrocínio, a maioria é na raça mesmo, sem ajuda de ninguém. Isso falando dos DIY.
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Nos dias de hoje, quais são as maiores dificuldades para se ter uma banda no Brasil?
Cara, acho que existem várias dificuldades, você tem que ter um trabalho, pra daí tirar a grana pra sustentar a banda, pagando ensaios, transporte, instrumentos etc. Os shows apenas se sustentam, são pouquíssimos lugares que você realmente consegue alguma grana a mais dos custos. Mas isso nunca impede a vontade do pessoal em ter banda e sempre tocar aqui, acho que essa dificuldade traz uma alma mais verdadeira para a coisa, ficam mais difícil, requer mais esforço, daí você percebe que bandas com muitos anos de existência realmente gostam disso tudo e são verdadeiras. O incentivo geral da sociedade é fraco também, ter banda, ter tatuagem, gostar de punk por muito tempo ainda é visto como coisa de vagabundo, de gente que não pensa em responsabilidade, isso é o que as pessoas realmente pensam nesse país.
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O que você pode nos adiantar sobre o CD do Discarga?
Nosso disco novo ainda não tem um nome definitivo. Estamos terminando ele ainda, até metade de abril estará pronto e meio de maio deve ser lançado. Em CD irá sair no Brasil pelos selos Läjä (Brasil), 625 (EUA) e Karasu Killer (Japão). Em LP irá sair na Alemanha pelos selos: Läjä (Brasil), Refuse (Polônia) e Thrashbastard (Alemanha).
Esse disco é nosso maior trabalho feito até hoje, são 19 músicas inéditas no LP, e em CD sairão 17 dessas, além de faixas extras de um compacto que lançamos na Espanha em 2005, split com uma banda de Barcelona chamada H-Zero pelo selo Mindless Mutant. Esse disco é uma mistura geral de tudo que já lançamos, está muito rápido, tem várias mixagens experimentais, e gostamos muito de produzir ele. Foi gravado no estúdio Rock Together, em São Paulo.
Obrigado pela disponibilidade e paciência, Deixe a mensagem do Discarga para os leitores japoneses.
Esperamos tocar um dia no Japão, seria uma honra para nós. Nossos amigos do Mukeka di Rato foram e adoraram, deve ser uma experiência e tanto. O Japão é muito especial pela histórias das lendárias bandas de hardcore/punk, apreciamos demais o trabalho de todas! Muito obrigado ao Rafael e à Doll Magazine!
Contatos:
www.myspace.com/discarga
www.fotolog.com/discarga
o_inimigo@hotmail.com